Porque ainda pagamos taxas bancárias?

Taxa é uma exigência financeira cobrada por uma instituição para o uso de determinados serviços. No caso dos bancos, normalmente, são cobradas taxas mensais para o uso de um pacote de serviços dentro de uma conta bancária, além de taxas para a realização de processos como transferências ou conferência de extratos. Mas, a maior renda dos bancos não vem das taxas de serviços, e sim do spread bancário. Se as taxas de manutenção de contas, TEDs, DOCs, folhas de cheque, etc. representam cerca de 15% da renda dos bancos, então por que ainda pagamos tantas tarifas? Por que ainda não usufruímos de transferências sem taxas e outros serviços gratuitos?

Como os bancos ganham dinheiro?

A maior renda de um banco vem do chamado spread bancário. Isso é a diferença entre os juros cobrados dos empréstimos e os rendimentos pagos pelos investimentos, como a poupança. Essa diferença pode ser enorme, já que os juros podem chegar a alcançar 200% ao ano sobre o valor emprestado e os investimentos rendem, em média, cerca de 7,25% ao ano. Você pode dar uma olhada no infográfico da revista Mundo Estranho, que explica bem o spread bancário!

Ou seja, os bancos são um sistema financeiro que “revende” dinheiro. Eles “compram” o seu dinheiro – quando você coloca um valor na poupança, você deixa de ter acesso à ele, mas recebe algum lucro por isso. Depois, eles “vendem” para outras pessoas na forma de empréstimo.

Os empréstimos oferecidos pelos bancos se apresentam em várias formas, como os empréstimos pessoais, financiamentos de imóveis ou veículos, cheque especial e outros. Isso possibilita que o banco alcance diversas pessoas com objetivos diferentes, arrecadando mais dinheiro com os juros. Aliás, o Brasil é o segundo país com maior spread bancário do mundo, ficando atrás apenas de Madagascar.  

Isso mostra que a administração do nosso dinheiro é um serviço “secundário” oferecido pelos bancos. O foco, e a principal fonte de renda, por fim, são os empréstimos e o ganho sobre os juros. Ou seja, os bancos não perderiam uma quantia significativa de dinheiro se oferecessem aos clientes, por exemplo, transferências sem taxas.

Foto de várias moedas agrupadas em foco e a imagem de um relógio ao fundo.

O internet banking mudou a situação

É claro que os gastos para manter toda uma estrutura bancária são bastante significativos. Entretanto, o avanço da tecnologia pode ajudar a diminuir os gastos dessas instituições.

O Banco do Brasil, por exemplo, apresentou em 2016 um plano de reestruturação, com o fechamento de 781 agências bancárias no país, de acordo com a Folha. A intenção do banco é adequar os serviços ao novo comportamento dos clientes, que tendem a utilizar mais o internet banking e menos as agências físicas. Com toda essa reformulação, a instituição pretende economizar R$750 milhões por ano. Esse é um exemplo de como os bancos podem reduzir os seus gastos aproveitando a mudança no perfil de seus usuários.

Mas as taxas sobre serviços continuam lá. Até 2008, era permitido que as instituições financeiras cobrassem qualquer taxa e qualquer valor para tal. Porém, naquele ano, o Banco Central regulamentou as cobranças de tarifas. Mas ainda podem ser cobradas taxas pela manutenção da conta, para a realização de transferências, emissão de talões de cheque e cartões de crédito, sem limite definido pelo Banco Central.

Em 2016, a Exame noticiou um aumento nas tarifas de cinco bancos: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander. O artigo ainda mostra preços exorbitantes que podem ser cobrados por pacotes de serviços desses bancos.

Mas é possível que um banco sobreviva sem cobrar nenhuma taxa dos seus clientes? Sim! A exemplo disso, tem-se os bancos que oferecem contas eletrônicas. O cliente só tem acesso a esse tipo de conta pela internet ou por caixas eletrônicos. Nesse caso, não existe tarifa de manutenção da conta ou para a realização de transações. O cliente apenas é cobrado quando o usuário contata o atendimento por telefone ou se dirige até uma agência.

O Banco Intermedium criou um “Tarifômetro” para medir quanto seus clientes de conta digital economizam em tarifas bancárias. Em 2016, foram mais de R$11 milhões. Até maio de 2017, já eram mais de R$21 milhões economizados.

Com o uso do internet banking, diminui a necessidade de agências bancárias e, consequentemente, diminuem os gastos das instituições financeiras. Isso já poderia ser uma oportunidade para que os bancos diminuíssem os valores das tarifas repassadas aos seus clientes. Poderiam até mesmo oferecer transferências sem taxas e isenção em pacotes de manutenção de conta. Mas, como vimos, o que acontece é o contrário. Por que?

Investimento!

Uma das explicações é que o brasileiro ainda não tem a cultura de investir. O crescente interesse das pessoas em aprenderem sobre educação financeira é recente. Com o aumento do acesso à internet e, por consequência, à informação, possibilita-se que mais pessoas compreendam a importância e o poder dos investimentos. Aliás, não é preciso nem entender profundamente sobre SELIC e outros, pois já existem plataformas que escolhem os melhores investimentos para você, como o Warren.

Foto de um cofre com notas de dinheiro e moedas ao redor, representando economia de dinheiroQuanto maior a quantia investida em um banco, maior pode ser o desconto nas tarifas! Para os bancos, isso é interessante. Se existe mais dinheiro investido, existe mais dinheiro para ser emprestado e mais lucro para ser recebido.

A revista Mundo Estranho fez um cálculo hipotético, considerando o valor médio de algumas taxas nos seis maiores bancos do nosso país. Suponha que uma pessoa fez um cadastro em um banco, em um mês, e utilizou um de cada dos seguintes serviços: pacote de manutenção da conta; segunda via de cartão de débito; talão de cheque; extrato mensal eletrônico; saque em caixa eletrônico; DOC eletrônico; depósito identificado; e compra de moeda estrangeira.

O valor médio calculado a partir dos valores individuais (em 2013 – mudou muito de lá pra cá) cobrados pelo Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Santander e HSBC (na época), sem considerar os pacotes de serviços, seria de R$116,56. Isso equivale a 12,4% do salário mínimo atual!

É um valor pequeno, ainda mais considerando que a maior parte da população recebe apenas um salário mínimo por mês. Mesmo assim, o banco ganharia mais se esse dinheiro fosse investido ao invés de ser gasto com tarifas sobre serviços.

Concluindo: o que podemos fazer?

Podemos economizar procurando o serviço mais barato e que melhor atenda às nossas necessidades. Se for possível, optar por uma conta digital, com taxas reduzidas ou inexistentes. Ou uma conta de serviços essenciais. Negociar com o banco. Investir parte da renda mensal, seja na poupança ou em outros meios. Utilizar alternativas para serviços bancários, como as transferências sem taxas por aplicativos financeiros.

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